Eu tinha uns 16 anos e frequentava a Ginástica. Foi ali que comecei a conhecer eles. Acho que o primeiro foi o Biduca, o Cláudio Costa. Depois veio o Fritz, o Frederico Bohnenberger, que foi padrinho do Thiago. Depois o Fernando e o Ivan. E começamos a sair os cinco juntos.
Ficamos tão amigos que até hoje eu não sei explicar direito o que aconteceu. Foram anos e anos sempre juntos, um levando o outro em casa. Pensávamos as mesmas coisas, inclusive sobre os Beatles. Adorávamos os Beatles. O Biduca cantava as músicas deles, e a gente chegava a fazer serenata com ele no violão.
Os finais de semana eram sempre juntos: acampamento, pescaria, festa. Um fazia o que agradava o outro. Fomos muito queridos uns com os outros. Foi uma juventude maravilhosa.
Cada um tinha o seu jeito. O Fernando, o mais alemão da turma, embora o Bohnenberger também fosse, era todo disciplinado, todo organizado. O Ivan era o mais sentimental. O Fritz era brincalhão, querido, mas mais tímido. E assim nos integramos: éramos cinco, como os dedos da mão.
Naquela época eu escrevia crônicas no Jornal NH, de Novo Hamburgo, e a turma virou assunto. Escrevi “Os dedos da mão”, que sintetiza bem o que a gente foi. Escrevi “O rei do acampamento”. Escrevi “O vôo do DKW”.
Convivemos uns dez anos como jovens, como solteiros. Depois cada um foi para o seu lado, casamos, e a amizade continuou. Praticamente a vida inteira. Nunca nos separamos, mesmo fisicamente separados.
Fui amigo do Fritz até ele morrer. Quando ele se foi, eu entrei em desespero. Depois o Biduca morreu também, e isso também me fez muito mal.
Sempre me considerei uma fortaleza emocional. Devo isso ao Velho Nôra, meu pai, que foi muito legal comigo. Mas devo também a eles.
2026: o Ivan guardou
Este ano, o Opinião de Primeira ganhou um site novo, com 5.240 colunas publicadas e um arquivo histórico desde as primeiras edições. Foi aí que o Ivan Carlos dos Santos me mandou uma mensagem.
Ele lembrou que a minha história escrevendo é bem mais antiga: vem das crônicas no NH. E contou que tinha guardado três delas, nos recortes originais do jornal: “Os dedos da mão”, “O rei do acampamento” e “O vôo do DKW”, a mais significativa para ele. Só esqueceu de anotar a data, logo ele, que data tudo o que guarda, até os livros que compra.
Talvez eu seja o único que tenha alguma coisa daquela época, do que tu escrevia.Ivan Carlos dos Santos
Ele disse que guardou aqueles recortes com muito carinho e com a honra de ter sido um dos personagens da minha vida.
Fiquei todo besta.
Décadas depois, os dedos da mão continuam juntos. As três crônicas estão aqui embaixo, do jeito que o Ivan guardou.
Sérgio Pires
